quarta-feira, 16 de março de 2011


Hoje bati três vezes na porta de casa.
Não sei porquê?
Estava aberta.
Carecia senti-la, ouvi.la gritar comigo.
Grita!
Perdoa!
Corri pelo corredor, galguei aos pares as escadas,
(Menina de nada)
Gritaram também, rangendo ao meu passar.
Saudade!
Do cheiro das flores na jarra do velho móvel da sala.
Não fui capaz.
Não estive lá.
Tudo gritava demais em mim.
Desculpem ter crescido sem avisar.
Não poder sentir o o gritar da porta, das escadas ao meu galgar.
Gritem!
Perdoem!
As flores, o seu cheiro,
Não mais ali para mim.
Eu não mais ali para mim,
Só a sombra de um ser,
(Menina de nada)
Pairando ao longe...
À porta de casa.

(Elda Costa).

quinta-feira, 10 de março de 2011

Obrigado Caeiro!

Alberto Caeiro

IV - Esta Tarde a Trovoada Caiu

Esta tarde a trovoada caiu
Pelas encostas do céu abaixo
Como um pedregulho enorme...
Como alguém que duma janela alta
Sacode uma toalha de mesa,
E as migalhas, por caírem todas juntas,
Fazem algum barulho ao cair,
A chuva chovia do céu
E enegreceu os caminhos ...
Quando os relâmpagos sacudiam o ar
E abanavam o espaço
Como uma grande cabeça que diz que não,
Não sei porquê — eu não tinha medo —
pus-me a rezar a Santa Bárbara
Como se eu fosse a velha tia de alguém...

Ah! é que rezando a Santa Bárbara
Eu sentia-me ainda mais simples
Do que julgo que sou...
Sentia-me familiar e caseiro
E tendo passado a vida
Tranqüilamente, como o muro do quintal;
Tendo idéias e sentimentos por os ter
Como uma flor tem perfume e cor...

Sentia-me alguém que nossa acreditar em Santa Bárbara...
Ah, poder crer em Santa Bárbara!

(Quem crê que há Santa Bárbara,
Julgará que ela é gente e visível
Ou que julgará dela?)

(Que artifício! Que sabem
As flores, as árvores, os rebanhos,
De Santa Bárbara?... Um ramo de árvore,
Se pensasse, nunca podia
Construir santos nem anjos...
Poderia julgar que o sol
É Deus, e que a trovoada
É uma quantidade de gente
Zangada por cima de nós ...
Ali, como os mais simples dos homens
São doentes e confusos e estúpidos
Ao pé da clara simplicidade
E saúde em existir
Das árvores e das plantas!)

E eu, pensando em tudo isto,
Fiquei outra vez menos feliz...
Fiquei sombrio e adoecido e soturno
Como um dia em que todo o dia a trovoada ameaça
E nem sequer de noite chega.


- Obrigado Caeiro por tua simplicidade das coisas tão complexa e fantástica...

Por todos os momentos....

Sempre... Pessoa...

terça-feira, 8 de março de 2011